SOB O SIGNO DE EROS

 

José Heronides Andrade de Moura – UFRJ / UERJ

 

 

Queremos não só examinar o corpo literário que ora nos oferece a oportunidade do exercício crítico mas também o deleite da vivência poética, com base na escolha de dois poetas contemporâneos, abordados por ordem cronológica de organização. Paulo Leminski, que centrou a criatividade na linguagem, sem ser necessariamente um modernista nem tampouco concretista, fez bom uso das lições apreendidas com os mestres predecessores, que abriram caminho à construção identitária. Um outro rebelde em atitude na concepção temática acima de tudo é Antônio Cícero, que tira partido da tradição da mesma feita apaixonado pela linguagem, porém menos experimental, deixando entrever um lirismo amoroso homoerótico, emprestando dignidade estética, diferente daquela perspectiva marginal imprimida nos anos 70, da qual Leminski vivenciou e participou ativamente. A singularidade estilística do segundo autor dialoga com seu par enquanto predileção pelo tema erótico. Tal opção permite fazer ponte com a radicalidade e irreverêrencia no tratamento da forma e do conteúdo.

Para isso, foram selecionados quatro poemas para fazer frente à tendência massificadora e despersonalizadora, que remonta principalmente ao século XIX, quando se tentou instituir uma higienização científica a fim de assegurar o bom funcionamento do aparato ideológico, dentro do pensamento burguês de fundo positivista. Esta inserção normativa para imposição de modelos restringidores da expressão artística gerou desdobramentos interessantes no Brasil. Tudo que desviasse da doxa moral deste modelo estava sujeito à sanção ou tais manifestações seriam absorvidas para abastecer o mercado com novidades, para neutralizar o efeito do impacto sobre o tecido social. Apesar da poesia promover mudanças definitivas, como se acreditou no período da repressão política nos anos do ”desbunde” e da contracultura, ela não logrou resultado pragmático, como acreditavam os poetas engajados na luta contra o sistema.

Mesmo com a modernização dos recursos para viabilizar o livro como produto cultural, a poesia continua a surpreender e não acatar os ditames da moda. Se Eros soprar-lhe os ouvidos, independentemente da época, já justifica um corpo autônomo que se presta muito mais que a análise, ou melhor, à reflexão pela imagem emitida e do diálogo no “espelho da linguagem”, construída com tecido de pele sensível, à medida que dá sentido à forma material, transformando escrever em anatomia. Muito embora fascine, está longe ser natureza aprisionável, como pleiteiam ainda os seguidores da objetividade contemporânea, numa reedição do positivismo nesta sociedade desumanizada.

Adotamos o procedimento metodológico de análise dos textos em dois planos basicamente. O primeiro deles cuida do tratamento formal, sem contudo ter a pretensão de esgotar a discussão, no tocante ao tema abordado, isto é, erotismo e criação, como ele se apresenta dentro da perspectiva do eu lírico, de acordo com os textos selecionados e os desdobramentos dos aspectos formais e conteudísticos. É o corpo literário. O segundo atenta às possíveis significações derivadas da materialidade corpórea. Portanto, da eroticidade explícita ou sugerida. A aproximação dos poemas visa ao prazer da linguagem, como elemento poético que produza um efeito além da retórica teórica.

Para realizar tal tarefa, reunimos os poemas relacionáveis por afinidades metapoéticas. Uma vez que Eros representa a potência da criação, nada melhor que centrarmos atenção nas manifestações do mito quando assume a forma de Amor. Por isso o objeto de desejo é a linguagem como invenção, recurso utilizado por ambos os poetas em questão para expresssar paixão.

Comecemos então com o poema de Leminski, com estilo demolidor ao eleger a prosa como mote em Caprichos e Relaxos. Eros se manifesta na literariedade explícita, tematizada através da prosa, transformado em objeto poético o ludismo do barroco revisitado, em conceito recriado, atribuindo àquela uma função secundária à poesia, que toma a forma vertical de leitura e sentido de masturbação, vista de um modo grotesco, sem aura. O texto identificado com orgasmo para falar de ponto de partida, do processo de elaboração mental, ou numa metapoética, mostra a contundência e o desagradável, à guisa oswaldiana de fazer humor com poesia em coluna de breve bloco unitário. É importante notar que o emprego do enjambement agiliza a leitura, numa reflexão sem pontuação, permitindo o comunicado chistoso, fazendo-o coincidir em forma e conteúdo. Sem as marcas gramaticais de pontuação, os versos substituem-nas, deixando que o ritmo organize o encadeamento dos acentos vocálicos abertos e fechados.

 

sim

eu quis a prosa

essa deusa

só diz besteiras

fala das coisas

como se novas

não quis a prosa

apenas a idéia

uma idéia de prosa

um esperma de trova

um gozo

uma gosma

 

 A simplicidade é mais uma aparência, um jogo ilusório do qual o leitor não consegue escapar das malhas, porque a ambigüidade, a polissemia, são aspectos indissociáveis do texto artístico. Paulo Leminski brinca com os códigos assimilados pelo leitor pretensioso, que serve de cúmplice à reconstrução ou desconstrução, esgarçando os limites entre prosa e poesia.

Tomemos agora, como ilustração, ”Administério “, outro poema em prosa, não fosse o engendramento semântico atrelado ao fônico, que define a natureza poética do texto, construído num primeiro bloco de quatorze versos e num segundo de dez.

 

Quando o mistério chegar,

já vai me encontrar dormindo,

a metade dando pro sábado,

outra metade, domingo.

Não haja som nem silêncio,

quando o mistério aumentar.

Silêncio é coisa sem senso,

não cesso de observar.

Mistério, algo que penso,

mais tempo, menos lugar.

Quando o mistério voltar,

meu sono esteja tão solto,

nem haja susto no mundo

que possa me sustentar.

 

 Meia-noite, livro aberto.

mariposas e mosquitos

 pousam no texto incerto.

Seria o branco da folha,

 luz que parece objeto?

Quem sabe o cheiro do preto,

 que cai ali como resto?

Ou seria que os insetos

 descobriram parentesco

com as letras do alfabeto?

 

O título, uma solução neológica, por inclusão de mais de um vocábulo em um, enriquece a densidade semântica. Trata-se do primeiro desdobramento projetado. Talvez seja um meio de evitar a nomeação do poema pela via mais usual, posto que Leminski não era muito afeito a por títulos nas suas composições. Esta técnica de manipulação de palavras se evidenciou também com os modernistas, sem mencionar a influência concretista da qual o poeta não esteve imune. Sousândrade, inovador pré- modernista, já houvera recorrido ao traço estilístico de composição vanguardística, retomado pelos epígonos modernistas-concretistas como os irmãos Haroldo e Álvaro de Campos. Drummond também costumava tematizar a carpintaria da morfologia.

Outro traço identificador do eu lírico é o caráter metalingüístico das imagens cunhadas como acepções para designar um entrelugar nas definições. Leia-se mistério como situação-limite, no ofício do poetar visionário, incorporando a referência bandeiriana de “Consoada”, através do enunciado anafórico, que se organiza antes de cada quatro versos na primeira parte. Vejamos a citação de Leminski que nos remete à “Consoada”, numa intertextualidade com Bandeira em tom parodístico:

 

Quando o mistério chegar,

já vai me encontrar dormindo,

 metade dando pro sábado,

outra metade, domingo

...............................................

 

Eis o original para comprovar a identidade estrutural básica presente no primeiro verso, que se torna recorrente:

 

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo.

Talvez sorria, ou diga:

 - Alô, iniludível!

 

A assunção do mistério reside no emprego de imagens arrojadas no ser, no estar e no haver, como por exemplo em “metade dando pro sábado, outra metade, domingo” ou ainda “Não haja som nem silêncio”, convocando o bardo lírico a realizar uma temporária anarquia porque “Silêncio é coisa sem senso”, ensina.

O caráter metapoético da segunda parte é operado em atmosfera de magia com predominância das indicações noturnas, que são tecidos da mesma trama gráfica, ocupando os interstícios e dando a idéia de tessitura; inclusive patente no apelo visual dos recuos alternados da composição. Sombria é a tentativa frustrada de completude erótica no ato de experimentar um ritual de passagem, que é desfeito pelas palavras despoetizadas na segunda parte. Assim, as rimas e a semelhança acústica articulam um eixo vertical de maldição, no modo como o dado prosaico se insurge quebrando a expectativa romântica paradigmática.

 

 Meia-noite, livro aberto

mariposas e mosquitos

 pousam no texto incerto.

Seria o branco da folha,

 luz que parece objeto?

Quem sabe o cheiro de preto,

 que cai ali como resto?

Ou seria que os insetos

 descobriram parentesco

com as letras do alfabeto?

 

Mas o questionamento retórico não deixa dúvida quanto ao sentido irônico do desfecho. A pretensa realizaçào transcendental pela escrita redimensiona o desejo de continuidade, portanto de infinitude, transformando-se-se em divagação lúdica para exercício da subjetividade poética, tão logo o mistério se materializa na cotidianeidade metapoética e dramática.

Em “O país das maravilhas”, Antônio Cícero encara a vontade de transcendência mediante o eu poético como uma possibilidade em potencial. Entrega-se ao sabor da linguagem, compartilhando com o leitor a reflexão do lugar utópico. Convida-o a mirar-se ou melhor, a mergulhar nas imagens que reportam à condição do ser poético para tornar-se fundido à totalidade primeira e perdida, quem sabe na beatitude do estar simplesmente com, como atesta o texto em si:

 

Não se entra no país das maravilhas

pois ele fica do lado de fora.

não no lado de dentro. Se há saídas

que dão nele, estão certamente à orla

iridescente do meu pensamento,

jamais no centro vago do meu eu.

E se me entrego às imagens do espelho

ou da água, tendo no fundo o céu,

não pensem que me apaixonei por mim.

Não: bom é ver-se no diáfano

do mundo, coisa entre coisas há

no lume do espelho, fora de si:

peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,

um dia passo inteiro para lá.

 

O encaminhamento do discurso estético se dá de um modo não solipicista num bloco de quatorze versos. Neste diálogo sugerido entre “eu” e “tu”, o lugar fronteiriço é caracterizado como representação do sujeito poético. E a própria imagem, refletida no “espelho da linguagem”, autoreferencia a autoria em que o tema do narcisismo é explorado. Lugar intermediário de singularidade, de plena realização transcendental na vivência sensual da paisagem , que incorpora o olhar sutil do mesmo, desfazendo, todavia, um mal- entendido. Não se trata de egocentrismo romântico, que influenciou e antecipou o modernismo. É com certeza um estilo neo-maneirista do sujeito projetar-se no mundo das sensações, na síntese do céu com o mar, unindo os espaços mais abrangentes, emprestando materialidade à utopia dos elementos que atravessam a atmosfera traduzida no poema.

Como prova estar falando a mesma língua coerente de Eros, diz o fragmento de “Dita” que

 

qualquer poema bom provém do amor / narcíseo...Beijando o espelho d’água da linguagem, / jamais adivinhando se a arte imita / a vida ou se a incita ou se é bobagem: / desejarmo-nos é a nossa desdita, / pedindo-nos demais para ser dita.

 

Como vemos, o ludismo que encerra a citação reforça a finalidade maior: o atendimento à urgência do desejo, independente do modo como compareça metapoeticamente falando. O arrolamento dos heterônimos famosos, Catulo, Caetano, Safo e Fernando, são indicadores homoeróticos, que confirmam a pulsão de vida para muito além do corpo circunstancial.

Partindo do mitologema do andrógino em Platão, estamos diante de uma nova lírica ainda que clássica. Isto se explica pelo fato de a relação de inversão convencional e servil em que o amado deveria subjugar-se de bom grado ao amante conforme o código da Grécia Antiga é alterado. Em “De trás pra frente”, revertem-se os papéis com a reinterpretação do Amor, especialmente com base na fala de Fedro. Numa leitura contemporânea, a busca de completude permite a destruição de um dos dois amantes conforme afirma Bataille. Vamos ao poema então:

 

O amante tronco e membros

Eretos para o amado

Não o decifra um só instante

Eu mesmo ainda me lembro:

O amante é devorado.

Já o amado,

Por mais ignorante e indiferente,

Decifra o seu amante

De trás pra frente

 

A presença de aliteração e assonância contribui para a organicidade e inteireza da forma, animando a escrita do corpo, concedendo-lhe ritmo e musicalidade. Além das rimas internas, o esquema abcabbccc tem a função de marcar a regularidade rítmica. Neste sentido, os recursos estilísticos redundam e enfatizam a temática lírica e se coadunam com o discurso do desejo. Aqui a energia vital toma corpo na identidade diferenciada, onde há uma reversão de papéis, com as agentes que designam atividade(amante) e passividade (amado) mudando de função e provocando estranhamento.

A crença numa praticidade para consumo virtual, mormente na mídia escrita e televisada, reforça a idéia de que a poesia ainda preserva o espaço para dar vazão à paixão tão fora de moda, principalmente com a crise da virada do século, quando a ciência desnorteou o mundo ocidental, com a fundação de novos pressupostos técnicos, em que o racionalismo burguês tentou tirar de cena toda e qualquer manifestação divergente causador de mal-estar a esta ordem de cunho liberal .

Os rebeldes de ontem e de hoje nunca se conformaram em reproduzir pura e simplesmente os valores vigentes, pois são os inquietos que provocam a mudança do solo epistêmico. Em literatura brasileira, a rebeldia ficou mais configurada a partir do romantismo, com as idéias revolucionárias vindas da Europa. Em termos artísticos, ela é constituída de fundamentos mais subjetivos. Uma coisa é inegável, a poesia, como tal, tem a função inalienável de humanizar e convocar a sensibilidade dos leitores e autores a se congraçarem com o mito pródigo em benfeitoria, rico em criação e que tem o amor como sinônimo. Estamos sob o signo de Eros.

Com o pós- modernismo, as questões periféricas assomaram-se na vida dos diversos centros urbanos dos países satélites ou não. A família e a sociedade experimentam novos parâmetros de comportamento. E os dois poetas escolhidos estão aí para provar isso, como representantes desta tendência polêmica.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 2.ed. Petrópolis : Vozes, 1998, v.2.

CÍCERO, Antônio. Guardar. Rio de Janeiro : Record, 1996.

COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. 4.ed. Rio de Janeiro, Graal, 1993.

FÉLIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro : Funarte, 1998.]

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LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. São Paulo : Brasiliense, 1983.

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LEÃO, Emmanuel Carneiro. Aprendendo a pensar. Petrópolis : Vozes, 1997.

MARCUSE, Herbert. Eros y civilización. Trad. Juan García Ponce. Mexico : Editorial Joaquín Mortiz, 1973.

MILAN, Betty. O que é o amor. São Paulo : Círculo do Livro, 1983.

PAZ, Octavio. A dupla chama, amor e erotismo. Trad. Wladir Dupont. 2.ed. São Paulo : Siciliano, 1994.

PLATÃO. Diálogos Trad. Jaime Bruma. 3.ed. São Paulo : Cultrix, s.d.

______. Fedro. Trad. Pinharanda Gomes. 4.ed. Lisboa : Guimarães, 1989.

SOARES, Angélica. A paixão emancipatória. Rio de Janeiro : DIFEL, 1999.